E quando chove...

Nos Emirados Árabes Unidos chove em média 10 dias por ano. Compreende-se que quando chove seja o caos. As ruas não estão preparadas para a chuva, os prédios e as casas também não. Três horas de chuva intensa e os acidentes na estrada são às centenas, partes inteiras da cidade alagadas, escolas fechadas... Uma cidade de pantanas. Toda a gente fica fascinada a ver chover e, se na escola, é difícil afastar os garotos da janela da sala de aula, na rua, anda tudo a brincar à chuva. Nas montanhas é assustador, torrentes de água descomunais descem as encostas pedregosas, arrastando tudo à sua passagem.

Uma terra de camelos

Os camelos fazem parte das raízes da cultura emirati. No passado, pensava-se que eram uma dádiva de Deus aos beduínos, pela sua capacidade de se adaptarem às condições adversas do deserto. Hoje em dia, as corridas de camelos são a parte mais visível desta cultura. A carne de camelo é usada para fins culinários e o leite considerado muito mais saudável que o de vaca. O preço base começa nos 20000 euros e pode atingir milhões no caso dos campeões de corrida. São criados em quintas, onde os encontrei este fim-de-semana, numa das minhas caminhadas. Amigáveis, curiosos e gulosos! Sempre à espera de uma guloseima dos estranhos.

Quando se é da serra...

Sou da Mendiga, aldeia serrana de Porto de Mós, em pleno parque natural. Quando vim viver para os Emirados, sentia muita falta da serra. Depressa percebi que aqui não havia só deserto, e ao fim de 4 meses (dezembro de 2013), comecei a participar em caminhadas na serra nos emirados de Ras Al Khaimah, Fujairah e às vezes em Omã. Faço estas caminhadas quase todos os fins de semana, assim que o tempo arrefece um pouco. Este fim-de-semana foi Fujairah, em Wadi Spectrum, wadi é vale em árabe, por causa das cores absolutamente incríveis das rochas. Esta foi uma caminhada exigente e onde o espírito de equipa foi fundamental, mas uma bênção em termos de usufruir duma paisagem maravilhosa.

Moda feminina nos Emirados Árabes Unidos

Quando se pensa em mulheres desta região, a imagem é a de mulheres cobertas de preto, nalguns casos, a cara incluída. Aqui, atualmente, em geral, as mulheres vestem abaias pretas com apontamentos de cores discretos e decorativos. Cobrem a cabeça (nem todas), a cara descoberta, cuidadosamente maquilhada. Nem sempre foi assim. As roupas das mulheres nesta região foram planeadas para a vida berbere e a proteção do pó e do calor. Na cara uma máscara em tecido ou cabedal, douradas, para proteger o nariz e a boca da areia do deserto. Nas aldeias isoladas das montanhas ainda é possível encontrar mulheres vestidas com as roupas tradicionais, como nesta caminhada que fiz há 2 semanas. Emocionante.

Tartarugas em Omã

Voltei a Omã este fim de semana. Omã é a jóia do médio oriente: riqueza natural estonteante, património histórico riquíssimo e gente muito acolhedora. Depois... está em estado bruto. Conduzimos 7 horas do Dubai até Sur, costa virada para o mar arábico, para ver as tartarugas. É a época em que deixam o mar, ao anoitecer, escavam um buraco na areia da praia e partem ao amanhecer. Os ovos ficam ali até eclodir e as bebés nadam para o mar. É uma costa cheia de praias de areia branca, lindíssimas, não há resorts ou hotéis, nem gente a bronzear. Só pescadores. Ficámos numa guest house modesta, à beira mar, à noite as tartarugas bebés vieram, atraídas pela luz. Um momento único.

Quantos somos por aqui?

Somos muitos. Na embaixada estão registados cerca de 4000, mas devemos ser mais, uma vez que muita gente não está registada. Só hospedeiros de bordo, na Emirates, são cerca de 700, sem contar pilotos e engenheiros aeronáuticos. O que sei é que consigo encontrar um profissional português em quase todas as profissões. O meu dentista é português, quando recorri à fisioterapia descobri pelo menos uns oito portugueses cá no Dubai, a cabeleireira é portuguesa, também de Leiria, curiosamente! A oficina para o carro também é de portugueses! Não sei se a prometida legislação de aligeirar a carga fiscal terá alguma adesão por cá.

Gente do mundo

Conheci os meus melhores amigos aqui nos desportos de aventura. Chama-se Ebrahim, mas toda a gente o trata por Eby, tem 32 anos, é emirati e trabalha para o governo em qualquer coisa importante de que nunca fala. Apaixonado pelos desportos de aventura, tive o privilégio de o ter como guia nalgumas atividades por aqui, como canyoning, acampamentos no deserto e muito montanhismo. É montanhista certificado (fez a formação no Alaska). É de uma boa disposição contagiante e está sempre pronto a encorajar os outros a lutar contra os seus medos e não conhecer limites. Casou, num casamento arranjado e divorciou-se. Explicou-me um dia: a minha mulher deu-me a escolher entre o jeep e ela...

Gente do mundo: Saiful, motorista da Uber

Chama-se Saiful. É motorista da Uber, tem 29 anos e é do Bangladesh. Vem de uma aldeia não muito longe da capital e é o mais velho de quatro irmãos. Por motivos de saúde, o pai deixou de poder trabalhar e ele veio para o Dubai, aos 17 anos. Tem feito um pouco de tudo. Ele e o irmão, que nasceu depois dele, sustentam agora a casa e os dois irmãos mais novos que estão a estudar. Muito educado, horizontes abertos pela convivência com tanta gente do mundo, pensa pela própria cabeça. Não quer casar com uma esposa escolhida pelos pais e com quem terá direito de falar breves minutos antes do enlace. Gosta de me perguntar coisas sobre o meu país e outros países europeus. Eu pergunto sobre o seu. Riqueza!

Estamos juntos!🇵🇹

Hoje saí mais cedo do trabalho para ver o jogo. Ao contrário do primeiro jogo que vi num recinto gigante onde estavam muitos portugueses, este foi num pequeno bar meio vazio devido ao horário. Estava a gritar golo quando entra uma senhora com uma bandeira portuguesa. Ficámos logo apresentadas. Família portuguesa. Depois gritámos e sofremos as duas. Muito. O futebol é fantástico.

Estamos juntos!

Somos Portugal. Nos Emirados, em Timor, na França, na América, em todo lado onde houver um português. Desfraldam-se as bandeiras, cachecóis e tshirts como troféus. Canta-se o hino com o coração na boca e sofre-se. Estamos juntos!

O outro lado do Dubai

Para lá dos arranha-céus futuristas, do glamour e das vidas luxuosas, há o Dubai dos que ganham 200 ou 300 euros por mês, que vivem em alojamentos exíguos e partilhados por muitos. O Dubai dos que trabalham sem horário, em temperaturas que rondam os 50 graus, que circulam em autocarros sem ar condicionado e que voltam aos seus países cada dois anos. Vêm de países como o Bangladesh, a Índia ou Paquistão. São eles que fazem a cidade, heróis esquecidos e desprotegidos.

Gente do mundo

Chama-se Ezia, tem 34 anos e é professora de estudos islâmicos no Dubai. É do Iémen e pertence a uma tribo famosa. Há dois anos que não volta ao seu país... Recorda da última viagem o barulho das bombas e a destruição dos locais das memórias de infância. Trabalhou para pagar os seus estudos universitários porque, concluído o liceu, era esperado que ficasse em casa até casar. Dedica-se ao voluntariado e recebeu recebeu das mãos do presidente dos Emirados, Sheik Al Nayan, o prémio "The Great Givers". Irradia luz e serenidade.

Portugal

Quando se ama o nosso país, tudo nos fala dele. Andámos por aqui há muitos séculos, se perguntarem aos emiratis porque razão alguns têm pele e olhos claros, logo vos dizem que vêm dos portugueses. Laranja em árabe é portucal, da última vez que atravessei a fronteira para Oman, o polícia mal viu o meu passaporte, disse logo "o seu país invadiu o meu". O resto do grupo, de vários países à volta do mundo, a olhar para mim, incrédulos. E eu... orgulhosa.

Iftar

No Ramadão faço sempre um iftar (a primeira refeição após o pôr do sol e um dia de jejum), no Sheikh Mohammed Centre for Cultural Understanding. Os emiratis partilham connosco os seus costumes e tradições e os participantes podem perguntar tudo o que quiserem. Este centro fica no Dubai velho, à beira da creek, onde os velhos barcos de madeira falam de um Dubai de mercadores e pescadores, muito diferente do Dubai futurista de hoje. Portas abertas, mentes abertas, tolerância é a chave.